Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Nobody Knows - Capítulo 3

 

            O dia chegou.

            Após cinco longos anos a sonhar com um futuro ao lado do seu amado – três dos quais passados a desenvolver um plano que tornasse o seu sonho realidade – Bill atingiu a maioridade e ultrapassou a quantidade de dinheiro que necessitava.

            Aproveitou que Tom havia saído com uns amigos dos dois e que ia passar umas horas sozinho para preparar tudo para a sua pequena encenação.

            Escreveu uma pequena carta ao irmão, dizendo algo tão simples como «Du bist alles was ich bin und alles was durch meine Adern-fließt... Ich liebe dich...» («Tu és tudo o que eu sou e tudo o que me corre nas veias... Amo-te...»),  e avançou com o segundo passo do plano. Escondeu o dinheiro num sítio seguro, juntamente com umas roupas que Tom não vestia há mais de um ano, vestiu o seu melhor outfit e aperfeiçoou a sua maquilhagem, animadíssimo. Quando, finalmente, se olhou no espelho e conseguiu ver-se lindo, enviou uma mensagem para o telemóvel do irmão, combinando um encontro numa ponte perto do local onde escondera o dinheiro, sobre o rio onde há já dois anos praticava a sua natação e mergulho.

            Sem saber o que o esperava, Tom foi ao encontro do gémeo, sozinho. Assim que Bill avistou o irmão, correu para os seus braços e começou a cantar uma música que os dois haviam escrito – Heilig. Entre lágrimas, entregou-lhe a carta e, na última nota da canção, deixou-se cair da ponte.

            Tom tentou agarrá-lo, mas Bill escapou-se-lhe das mãos por meros centímetros. Em pânico, chamou as autoridades, mas o treino do irmão permitiu-lhe suster a respiração por tempo suficiente para nadar debaixo de água sem ser visto, até uma parte bem escondida da margem, onde o esperava o seu dinheiro e as roupas do irmão. Prendeu o cabelo, trocou de roupa, escondeu-se num capuz e partiu em direcção à estação dos comboios pouco antes das entidades competentes chegarem ao local e iniciarem a sua busca.

            Viajou, então, para Itália (trocando de comboio com bem mais frequência que o necessário), mais precisamente para a cidade de Florença, onde pernoitou.

            Na manhã seguinte, as suas roupas já estavam secas, mas não podia correr o risco de lhas reconhecerem, pelo que fez a última coisa que iria querer fazer: rasgar o seu melhor outfit. Arrancou as mangas da camisola e transformou as calças de ganga nuns calções. Mais uma vez, prendeu o cabelo e escondeu-o com o hoodie do irmão, que vestiu por cima da sua camisola só para poder sentir o cheiro de Tom bem junto a si. Queria manter as restantes roupas disponíveis limpas pelo menos até atravessar o Atlântico.

            Apanhou o primeiro voo para os Estados Unidos da América, mais exactamente para Chicago, e daí partiu para Nova Iorque, onde já era esperado na clínica.

            Dezassete meses, duas semanas, dois dias, cinco horas, dez minutos e trinta e um segundos após Bill Kaulitz dar entrada na clínica, Beatriz Macchio – ou Bibi, como preferia ser tratada – nasceu. Os tratamentos foram oficialmente terminados e todos os documentos estavam prontos. Assim como havia sonhado, Bill era agora uma mulher deslumbrante.

            A primeira coisa que fez foi cuidar da própria imagem: após uma tarde inteira às compras na cidade de Nova Iorque, estourando grande parte do seu dinheiro em vestidos, mini-saias, camisolas, camisas, blusas, tops, calças justas, calções, acessórios e tudo o que bem lhe apetecesse, dirigiu-se ao seu cabeleireiro de eleição, onde recebeu uma maravilhosa massagem capilar, depois de dar a bem merecida coloração à sua longa cabeleira. Já farto de se ver loiro e não querendo recorrer ao negro por motivos tão simples como ser uma nova etapa da sua vida e os cabelos negros a Bill pertencerem, ou o facto de o Tom o reconhecer em menos de um piscar de olhos, se aparecesse dessa forma; acabou por escolher o vermelho mais vivo possível como cor para o seu cabelo. Terminada a tintura, passou ao corte: escalado e com franja. Perfeito. Passou, então, à parte da depilação – quer facial quer corporal – e, por fim, à maquilhagem e unhas.

            Voltou ao seu apartamento completamente mudado.

            Durante o tratamento, Bill trabalhou para umas quantas lojas de roupa como consultor de moda e conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar uma casinha na Alemanha, perto da dos pais, assim como para o bilhete de volta. Já tinha o seu apartamento à venda, e alguns compradores interessados, o que lhe viria a render dinheiro suficiente para viver na Alemanha durante uns tempos, até arranjar novo emprego por lá.

            As saudades de casa, da família e, em especial, do gémeo há muito que o corroíam. Havia noites em que ele só queria desistir de tudo e voltar para os braços dos pais, para o colo do irmão, mas, após umas horinhas de choro, lá adormecia; e ao acordar já tinha uma nova força para lutar pelo que há anos desejava.

            Ele mantinha contacto com Tom, em nome de Beatriz, sim, mas não era a mesma coisa.

            Pouco tempo após chegar a Nova Iorque, Bill começou a não conseguir suportar a saudade, assim como a preocupação com o amado. Queria saber como estava Tom a lidar com a sua morte… Criou, então, um endereço electrónico para aquela em quem se viria a tornar – Beatriz – e usou-o para saber novidades de casa.

            Apresentou-se como uma amiga próxima de Bill, mas que naquele momento não podia estar na Alemanha devido a problemas pessoais e alegou entrar em contacto com Tom por estar preocupada com a ausência do amigo, que já há alguns dias não lhe escrevia; e Tom falou-lhe do suicídio. Beatriz consolou-o… ou tentou. Garantiu que tudo iria melhorar, sem nunca explicar o porquê de acreditar tão fervorosamente nisso, independentemente das perguntas do mais velho.

            Custava imenso a Bill ler as cartas electrónicas do irmão; quase que o conseguia ouvir a dizer-lhe aquelas coisas, quase que conseguia sentir as lágrimas do gémeo a caírem-lhe no ombro; e isso magoava-o como que se lhe arrancassem pequenos pedacinhos do seu coração, um a um.

            Tentava diminuir a dor de Tom ao referir ter sido a escolha de Bill, ou que Tom foi a última pessoa a quem ele dedicou uma música, ou que ele foi a última pessoa em quem Bill pensou… Não resultava. Tudo o que conseguia com isso era perguntas ou mais lágrimas no rosto daquele que mais amava.

            Entretanto, na Alemanha, Tom havia arranjado trabalho numa revista de música. Fazia, essencialmente, artigos acerca de bandas pouco conhecidas, como a sua banda de garagem havia sido. Nos tempos livres, dava pequenos concertos nas redondezas com os melhores amigos: Gustav, na bateria, e Georg, no baixo. Ele tocava guitarra e cantava. Sempre terminava os concertos com a música que Bill lhe dedicou na ponte: Heilig.

            Não tinha coragem para tocar a música que escreveu logo após a morte do irmão - Spring Nicht -, pois sabia que acabaria por chorar; e isso era coisa que ele não queria que as fãs vissem. Todos sabiam do que acontecera a Tom, e todos sabiam o porquê de ele terminar todos os concertos, sem excepção, com aquela música, mas ele sempre se fazia de forte e nunca permitia que quem quer que fosse se apercebesse que a falta do irmão o estava a matar aos poucos.

            A única pessoa a quem se abria um pouco era Bibi, por saber que era amiga do irmão e por ser a única que parecia compreender um pouco a sua dor. Mas nem os desabafos disfarçados com eufemismos que nem mesmo Bill compreenderia pareciam diminuir a dor que em si crescia dia após dia. Cada segundo longe do gémeo era como uma hora sob a mais intensa tortura, e cada badalada da igreja mais próxima arrancava uma parte de si. Tom não suportava sequer a passagem do tempo, por saber que voltaria a casa e a cama ao lado da sua ficaria para sempre vazia; a cama que ele proibiu que fosse retirada do seu quarto, que fosse sequer tocada por todo e qualquer ser - a cama do seu irmão.

            Dia após dia, Tom só conseguia pensar em seguir o gémeo e atirar-se da ponte, adiando o seu plano apenas pelas mensagens encorajadoras da amiga virtual, que parecia conhecê-lo tão bem quanto o falecido irmão.

            Ninguém, excepto ela, conseguia perceber a real dor de Tom; e saber que existia alguém que realmente o entendia, e ajudava, dava ao rapaz forças para continuar a respirar, independentemente da distância entre os dois.

            Rapidamente se tornaram grandes amigos e Tom nunca se fartava de pedir a Bibi que o fosse visitar, e ela sempre dava uma desculpa esfarrapada para adiar…

            Tom ainda ameaçou ir visitá-la, se ela não o fosse ver, mas ela conseguiu demovê-lo.

            No dia em que a verdadeira Beatriz entrou em casa, Tom tinha-lhe enviado uma mensagem ainda mais depressiva que o habitual.

            Sem saber o que lhe responder, Bibi disse apenas: “Parto amanhã para a Alemanha. Arranja-me sítio para ficar, por favor, ainda não assinei a escritura da casa que estou a comprar. Ich liebe dich.”.

            E assim foi.

            Após pagar uma fortuna por um bilhete de avião em direcção à Alemanha e preparar uma mala com as roupas que comprara nessa tarde, foi para o aeroporto.

            Enquanto esperava a hora do voo, telefonou aos seus patrões, indicando alguns colegas de profissão que a pudessem substituir na sua ausência, e garantiu que voltaria o mais rápido possível, quanto mais não fosse para esvaziar o seu apartamento; e explicou a situação de Tom. Os que compreenderam deram-lhe umas semanas de férias, os restantes despediram-na; e a esses ela limitou-se a mandá-los visitar uma real pedra e que lá dessem com a cabeça até parar de doer.

            Embarcou e, após algumas horas de viagem, poucas delas passadas a dormir, aterrou no aeroporto mais próximo de casa. Apanhou um táxi e apareceu à porta de casa de Tom.

            A campainha fez-se ouvir e a mãe dos gémeos foi abrir a porta, calmamente.

            - Não queremos comprar nada, obrigada.

            - Desculpe, eu não vim vender nada… Bom dia, Dona Simone, o meu nome é Beatriz Macchio. Não sei se o Tom falou de mim… Eu era amiga do Bill e tenho trocado e-mails com o seu filho… Lamento muito o que aconteceu ao Billy… Não tive oportunidade de vir antes, porque fiquei retida nos Estados Unidos…

            - O Tom falou-me de si… - Pausou. – Entre, por favor… E pode tratar-me por Simone…

            - Trate-me por Bibi… - Pediu, sorridente, tentando controlar-se para não abraçar a mãe e desfazer-se em lágrimas. – O Bill falava-me tanto de si…

            - Queres café…? – Mudou de assunto. “Bill Kaulitz” era, nitidamente, um assunto a evitar naquela casa. O tempo passou, mas nem por isso se tornou mais fácil encarar o que acontecera.

            - Sim, obrigada… - Aceitou.

            Simone retirou-se, e chamou Tom, que logo correu para ela.

            - BIBI! – Gritou, sem conseguir acreditar que ela realmente havia partido ao seu encontro, e abraçou-a com todas as suas forças.

            Após o longo abraço, Beatriz separou os seus corpos e ofereceu um enorme estalo ao amado.

            - NÃO ME VOLTES A FAZER ISTO, OUVISTE BEM, TOM KAULITZ?! – Gritou-lhe, furiosa.

            - Bibi…?

            - Nem Bibi, nem Bibi e meia! Cala-te que agora vais-me ouvir! Imaginas o que senti quando li a tua mensagem?! Fazes ideia do quanto chorei?! Não me voltes a assustar assim, ouviste?! Eu amo-te… – Suspirou, já com lágrimas nos olhos. – Eu amo-te, porra! I FUCKING LOVE YOU. Don’t you fucking dare to say those fucking things again, thou lumpish clay-brained coxcomb! – Praguejou; e após mais cinco ou dez minutos de praguejamento em Inglês, acalmou-se. – Estás bem, meu amor…? – Acabou por questionar, fazendo-lhe miminhos na face e dando-lhe muitos beijinhos.

            - Sabes que não percebi metade do que disseste, certo…?

            - Diz-me só como estás…

            - És a única pessoa que sabe a resposta a isso… - Baixou o olhar.

            - Oh, meu amor… - Abraçou-o. – A Bibi está aqui e vai cuidar de ti, agora, meu anjo… Tem calma…

            - Atravessaste o Oceano Atlântico por minha causa…?

            - Não, isto é um holograma palpável!

            - Gostas mesmo de mim…

            - Se eu te disse que te amo, é porque é verdade…

            - Como me podes amar se tudo o que sabes de mim é o que eu te escrevia…?

            - Não era esse amor de que eu falava… E o teu irmão sempre me falou muito de ti…

            - Mas mesmo assim… O que sabes de mim foi o que escrevi…

            - E ainda assim conheço-te melhor que todos aqueles que estavam contigo todo o santo dia…

            - Anda, quero-te mostrar as redondezas!

            - Eu quero é que me mostres uma cama! As redondezas não vão fugir; e eu preciso mesmo muito de descansar…

            - Vem comigo… - Deu-lhe a mão esquerda, pegou na mala dela com a direita e puxou-a para o seu quarto. – Podes ficar na minha cama, até arranjar um sítio decente para ficares...

            - Tens duas camas no quarto, Tom…

            - Na outra ninguém toca. Só eu mexo nas coisas do Bill, para limpar o pó… Aqui, ninguém entra. Nem sequer a minha mãe.

            - Tens que seguir em frente, meu amor… Já pensaste que ele pode estar num sítio melhor…? A cuidar de ti, perhaps

            - Acho engraçado como falas meio inglês… - Sorriu.

            - Faltam-me as palavras em alemão, desculpa… Passei muito tempo lá…

            - Então e os teus problemas que te prendiam lá?

            - Acabei de os resolver ontem… Quando vi a tua mensagem, apenas o trabalho me prendia a Nova Iorque… Falei com os patrões e vim para cá…

            - Eles não se passaram um bocadinho?

            - A maior parte deles compreendeu…

            - E os outros?

            - Digamos que os mandei bater com as cabeças em pedras até deixar de doer…

            - És tão mazinha…

            - Sou uma mazinha com muito sono… - Bocejou, ainda que graciosamente.

            Delicadamente, Tom conduziu-a à sua cama e ajudou-a a deitar-se.

            - Queres que procure o teu pijama…?

            - Não é preciso, amor… Eu durmo por cima do edredão, vestida… Só quero mesmo descansar um pouquinho…

            - Importas-te que fique aqui…?

            - De todo… - Descalçou-se e deitou-se numa pontinha da cama, puxando Tom para o seu lado.

            - És mais bonita do que o que eu te imaginava…

            - Como me imaginavas?

            - Loira, bem mais baixa…

            - Deixei de ser loira ontem… - Sorriu, e deu um leve beijinho nos lábios de Tom, adormecendo-lhe no ombro, de seguida.

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publicado por GambiiKay ♥ às 21:16
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comentários (11):
De Rafaela De Brito♥ a 20 de Janeiro de 2012
Ele Voltou!!! isto é... O ele era em iatalico se soubesse meter.mas acho que no teu blog naão da... Fogo o Bill foi-se embora e agora vem a bibi que fofo, estou a adorar maaaais *.*
De GambiiKay ♥ a 20 de Janeiro de 2012
o bill já não existe , bebé :3
De joaomagalhaes a 21 de Janeiro de 2012
E agora começam as coisas...
De GambiiKay ♥ a 21 de Janeiro de 2012
fuck yeah :b
De joaomagalhaes a 22 de Janeiro de 2012
Me gusta :)
De BOPS a 21 de Janeiro de 2012
Meu Deus, que capítulo o.o'
Coitado do Tom, o Bill não pensou nele? Podia ter tentado converter o irmão, mas não, converteu-se ele e 'matou-se' --.
Oh deus, gente tola --.
Mais x)
De GambiiKay ♥ a 21 de Janeiro de 2012
tens que perceber que o bill nunca deixou que o tom percebesse a paixão que sentia , que o que o bill tinha pelo tom já não era apenas amor , mas obesessão ; e que o bill estava disposto a TUDO para conseguir o que queria . além disso , para quê tentar fazer do Tom homossexual se ele mesmo sempre se sentiu mulher ? fazer a operação seria juntar o útil ao agradável ...
e sim , ele pensou no Tom , tudo o que ele pensou foi no Tom , e chegou à conclusão que teria que causar algum sofrimento ao homem que amava para poder vir a fazer dele o homem mais feliz do planeta , um dia . e não sei se leste a parte em que ele continuou a manter contacto com o gémeo , ele continuou a cuidar do mais velho , ainda que sob disfarce e à distância ...
De BOPS a 21 de Janeiro de 2012
Sabes bem que eu leio sempre tudo -.-
Sim...mas...quem sabe se ele revelasse os seus sentimentos ao Tom não tinha uma surpresa...?
De GambiiKay ♥ a 21 de Janeiro de 2012
tudo bem que o Tom não é tão hetero quanto o que aparenta (basta ver pelo beijo que deu ao bill só porque sim) , mas tens que ver que o bill é meio avariado do neurónio e prefere a forma complicada da coisa ... até porque ele queria ser mulher de qualquer das formas ...
De Tânia Fidalgo a 23 de Janeiro de 2012
eh lááá, a salganhada que para aqui vai! :P

se o tom soubesse, ia-se passar na certa!
De GambiiKay ♥ a 23 de Janeiro de 2012
o que vale é que ele não sabe de nada : )

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